



PALAVRAS DO PRESIDENTE NACIONAL DO ICMU DURANTE O LANÇAMENTO DO
PROJETO DECÁLOGO DAS OFERENDAS DIA 13/03/2026
Reunimo-nos hoje para celebrar não apenas o lançamento de uma cartilha, mas a continuidade de um processo histórico de construção coletiva. O Projeto Decálogo das Oferendas, que hoje se apresenta ao público em sua versão atualizada, tem raízes que remontam a 17 anos de caminhada, quando os primeiros debates e iniciativas começaram a ser estruturados.
Nesse percurso, é fundamental recordar e reverenciar a contribuição de Lara Moutinho (in memoriam), cuja sensibilidade, compromisso com a liberdade religiosa e profunda preocupação
com a preservação ambiental foram decisivos para o surgimento dessa proposta. Sua atuação abriu caminhos importantes para que hoje possamos avançar ainda mais no diálogo entre fé, responsabilidade ambiental e convivência respeitosa nos espaços públicos.
Nesta nova etapa, o projeto ganha renovado impulso graças à Emenda Parlamentar nº 1347, de autoria do Deputado Estadual Carlos Minc, cuja trajetória pública é amplamente reconhecida pela defesa do meio ambiente, da diversidade cultural e da liberdade religiosa. O Instituto Cultural Carta Magna da Umbanda teve a honra e a responsabilidade de atuar como executor desta emenda, com o apoio da UERJ conduzindo os trabalhos de atualização e elaboração desta nova edição do Decálogo.
Essa atualização tornou-se necessária diante das transformações sociais, ambientais e culturais que vivemos. Era fundamental que este documento adquirisse uma linguagem mais inclusiva, mais contemporânea e mais conectada com a realidade das práticas religiosas atuais.
Também é importante destacar que o próprio termo “oferenda” foi adotado justamente por seu caráter amplo e universal. A palavra deriva do ato de oferecer, de apresentar algo com respeito, devoção ou gratidão. Trata-se, portanto, de uma prática presente em diversas tradições religiosas e culturais ao redor do mundo. Ao utilizar esse termo, o projeto reafirma seu compromisso com a laicidade e com o diálogo inter-religioso, reconhecendo que diferentes religiões expressam sua espiritualidade por meio de gestos simbólicos de oferenda, cada uma dentro de seus próprios fundamentos e tradições.
Uma das grandes inovações desta nova cartilha é justamente ampliar o olhar sobre os espaços onde essas práticas são realizadas. Tradicionalmente, o debate concentrou-se nos espaços naturais, como praias, matas e rios. No entanto, a vivência cotidiana das comunidades religiosas revelou a necessidade de também abordar as práticas realizadas nos cemitérios, locais que possuem profundo significado espiritual para diversas tradições.
Trazer orientações sobre práticas sustentáveis também nesses ambientes representa um avanço importante, pois reconhece a diversidade das manifestações religiosas e contribui para fortalecer uma cultura de respeito, cuidado com o meio ambiente e responsabilidade no uso dos espaços públicos.
É igualmente importante destacar que esta nova versão do Decálogo não foi construída de forma isolada. Pelo contrário, ela resulta de um processo amplamente participativo. Nesse caminho, registramos também a contribuição incansável de Pai Waguinho Macumba (in memoriam), que sempre acreditou na importância de que este projeto avançasse e se consolidasse como uma construção coletiva, aberta à escuta e à participação das diversas tradições religiosas e da sociedade civil.
Foi com esse espírito que, em 2024, realizamos uma audiência pública amplamente participativa, reunindo representantes de diferentes tradições religiosas, pesquisadores, gestores públicos e membros da sociedade civil. A partir desse momento, foram promovidos debates, reflexões e contribuições por meio de chamamento público, garantindo que múltiplas vozes pudessem participar da construção deste documento.
O objetivo sempre foi construir um material que não fosse de uma religião para si mesma, mas um instrumento de orientação ética, socioambiental e inter-religiosa, aberto ao diálogo e à contribuição de toda a sociedade.
Por isso, é importante afirmar que o trabalho não se encerra com a apresentação desta cartilha. Na verdade, iniciamos agora uma nova etapa.
Entramos, a partir deste momento, em uma fase de divulgação, diálogo e escuta ativa. Nosso objetivo é levar o Decálogo das Oferendas não apenas à capital, mas a todas as regiões do Estado do Rio de Janeiro, ampliando o debate, ouvindo as comunidades religiosas e fortalecendo a construção coletiva de práticas cada vez mais conscientes.
Queremos que este material seja não apenas um guia para práticas sustentáveis nos espaços naturais e nos cemitérios, mas também uma ferramenta permanente de diálogo com a sociedade.
A escuta continuará sendo parte essencial desse processo, pois acreditamos que esta cartilha deve permanecer um documento vivo, em constante atualização, acompanhando as transformações da sociedade e as necessidades das comunidades religiosas.
Encerrando, reafirmamos que iniciativas como esta demonstram que fé, responsabilidade ambiental, diversidade religiosa e compromisso social podem caminhar juntos. Quando construímos pontes entre tradição, conhecimento e participação social, damos passos importantes na construção de uma sociedade mais justa, plural e sustentável.
Que este momento represente, portanto, não um ponto final, mas o início de uma nova etapa de diálogo, conscientização e construção coletiva.
Muito obrigado a todas e todos.
PAI MARCELO DE XANGÔ
PRESIDENTE NACIONAL ICMU

